Governo destinou R$ 1 milhão em ações de atenção básica
nas aldeias do Estado
Para fortalecer a atenção básica à saúde indígena, o Governo de Minas, por meio da Secretaria de Saúde (SES), destinou, no final do ano passado, mais de R$ 1 milhão para oito nações indígenas no Estado: Aranã, Xukuru-Kariri, Pankaru, Maxakali, Krenak, Kaxixó, Xacriabá e Pataxó. Segundo a coordenadora estadual de Saúde Indígena, Simone Abreu, esses recursos são de caráter complementar, já que tais políticas são de competência da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), conforme o Estatuto do Índio (Lei Federal 6001, de 19 de fevereiro de 1973).
O objetivo desse apoio é mudar a realidade nas aldeias. De acordo com estudo desenvolvido pelas pesquisadoras Juliana Albano e Karine Liliane Costa Oliveira, 30% dos idosos da aldeia apresentam desnutrição leve segundo parâmetros de avaliação nutricional - CB (circunferência do braço) e CMB (circunferência muscular do braço) – e 40% estão com sobrepeso, quando se analisa o índice de massa corporal (IMC). A pesquisa foi orientada pela professora Tatiana, da Escola de Nutrição do Centro Universitário do Leste Mineiro (Unileste).
O investimento do Governo mineiro se destina à construção de Unidades Básicas de Saúde (UBS), aquisição de barcos a motor para transporte fluvial nos rios Pará e Doce das equipes de saúde que atuam nas aldeias e instalação de radiocomunicadores e GPS. Os recursos ainda são empregados na qualificação dos agentes de saúde indígenas para que o atendimento se adéqüe às especificidades culturais desses povos. Dezesseis equipes de saúde indígena, do Programa Saúde Indígena, ligada ao Programa Saúde em Casa, recebem, cada uma, um bônus de R$ 2 mil. Os recursos são repassados pelo Governo de Estado para fortalecer a atenção primária.
A Coordenadoria Estadual da Saúde Indígena também está implementando a segunda etapa do Projeto Resgate da Medicina Tradicional Indígena e o módulo II do projeto Saúde Mental Indígena. Por meio da Escola de Saúde Pública (ESP-MG), estão sendo oferecidos cursos aos agentes de saúde nas aldeias onde foram constatadas vulnerabilidades para uso de álcool e drogas.
Transformação nos hábitos alimentares
A pesquisa, cujo objetivo foi avaliar o impacto da aculturação sobre os hábitos alimentares dos indígenas idosos pataxó, revela também, por meio da análise da circunferência da cintura (CC), distribuição irregular de gordura corporal, o que acarreta risco para o desenvolvimento de doenças crônicas não-transmissíveis (DCNT), alerta Tatiana Oliveira.
Na aldeia, tais doenças já se instalaram: 50% dos pesquisados têm hipertensão arterial, 30% apresentam diabetes mellitus associada à hipertensão e 10% diabetes mellitus tipo, segundo registro das pesquisadoras. Cerca de 60% dos entrevistados afirmaram fazer pelo menos três refeições diárias e 10% fazem cinco refeições, ao acrescentarem ceia e lanche da tarde.
Observou-se também inadequação em relação à média dos macronutrientes, com um consumo de carboidratos e proteínas acima do valor médio recomendado pela Dietary Reference Intakes (2005), estando somente à média dos lipídios dentro dos padrões de referência.
Para o coordenador regional da Funasa em Minas, Ronaldo Cerqueira Lima, a pesquisa de avaliação nutricional do idoso é de grande importância para se conhecer a real situação desse público-alvo. "Esse trabalho mostra a necessidade de se implementar um trabalho voltado à população idosa nessa área, inclusive com ações educativas". Segundo ele, a Funasa em Minas está realizando levantamento da população idosa, por sexo, com equipe multiprofissional, para incluí-la no Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan) e também em ações mais focadas para essa faixa etária.
Educação nutricional
As pesquisadoras mineiras desenvolveram um estudo descritivo, transversal, quantitativo e qualitativo com dez idosos indígenas, de ambos os sexos, entre 63 e 82 anos, tendo sido coletados dados socioeconômicos, antropométricos e do perfil alimentar da aldeia Pataxó. A partir do resultado, segundo Karine Oliveira, pôde-se perceber que o estado nutricional e os hábitos alimentares dos idosos estão relacionados com as transformações a que os indígenas brasileiros foram submetidos nas últimas décadas.
Oliveira destaca a introdução de hábitos alimentares urbanos, como o consumo de pão, nessa comunidade rural. A dieta desses idosos indígenas encontra-se inadequada, conforme as necessidades energéticas diárias, levando a uma desordem nutricional e doenças crônicas não-transmissíveis, com perda significativa de seus costumes. A partir desse resultado, avalia Juliana Albano, os agentes de saúde indígenas que atuam na aldeia poderão orientar sobre alimentação de qualidade e em quantidade suficiente ao atendimento das necessidades desses idosos.
O presidente do Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional Sustentável de Minas (Consea), dom Mauro Morelli, diz que pesquisa dessa natureza proporciona conhecimento da realidade, que exige uma resposta. "O direito à alimentação e nutrição é um direito humano básico e universal, que deve ser garantido a todo e qualquer ser humano, de qualquer raça ou idade. Quando uma comunidade, um grupo ou uma pessoa tem seu direito à alimentação negado, lesado ou sofre risco de não ser garantido, cabe à família, à sociedade e aos governos garantir de imediato esse direito básico", alertou.
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