terça-feira, 29 de junho de 2010

Monitoramento de água permite aumento na qualidade do leite


 

A jovem Tatiana Rodrigues, de 18 anos, moradora da comunidade rural do Mogol, em Lima Duarte, na Zona da Mata, desloca-se quinzenalmente, cerca de 1 km para analisar a água de um dos afluentes do Rio Grande, próximo a um dos maiores atrativos turísticos naturais do estado – o Parque de Ibitipoca. "Às vezes eu vou a pé, em outras vou a cavalo com a minha mãe, ou então, vou de bicicleta", relata. Após recolher uma pequena quantidade de água, a menina analisa diversos fatores químicos e envia os dados coletados para a extensionista da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais (Emater-MG), Ana Helena Camilotto, que os repassa à Embrapa Gado de Leite. "Além de ter novos conhecimentos, você ajuda a comunidade a preservar o meio ambiente", afirma Tatiana, que participa, ao lado de outros 16 jovens, do projeto Monitores Ambientais de Recursos Hídricos.

 

Iniciado em 2009, o projeto, realizado em parceria com a Embrapa Gado de Leite, IEF e Emater-MG, prevê a distribuição de kits de análise de água a jovens de comunidades rurais do entorno da Serra do Ibitipoca e da Serra do Papagaio. Simples e prático, o kit contém instrumental necessário para análise completa, de acordo com as determinações da Portaria 357 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama). De acordo com o diretor da escola onde Tatiana e mais três monitoras de Lima Duarte estudam, Paulo Afonso Vieira, a importância do projeto está na possibilidade de ampliar os horizontes das alunas que foram selecionadas por critérios como o gênero, região (zona rural) e histórico escolar".

 

Agora, após um ano de análises quinzenais, as jovens e os envolvidos no projeto já estão mais familiarizados com os critérios que definem a classificação dos cursos d'água quanto às suas qualidades hídricas. Para tal, no último mês, foi implantada, a alguns metros acima do ponto em que Tatiana realiza suas coletas, uma Unidade Demonstrativa de Saneamento Rural.

 

Reunindo uma fossa séptica biodigestora para o tratamento de esgoto doméstico e um clorador para o tratamento da água consumida, a unidade foi implantada na propriedade de Luvercínio Pacheco. "A unidade demonstrativa foi montada antes do local onde está sendo feito o monitoramento da água. Isso permite acompanhar as águas do afluente que passa nos fundos da casa de Luvercínio. E isso é importante para a gente ver a influência da qualidade da água no leite produzido na propriedade", explica Ana Helena Camilloto. "Essa unidade servirá de modelo para a comunidade. Há uma abertura para que as pessoas entendam o funcionamento e adotem a tecnologia", completa o coordenador técnico regional da Emater-MG, Gilberto Malafaia. De acordo o coordenador, há uma expectativa de ainda serem construídas mais três unidades semelhantes na Zona da Mata e Sul de Minas.

 

Há 12 anos Luvercínio cria gado de leite, atualmente produz 100 litros diários. Apesar da boa qualidade de sua produção, a proposta do projeto anima-o a melhorar ainda mais. Ao custo de cerca de R$2,5mil (no caso da unidade demonstrativa, financiada pelo projeto) os equipamentos permitem o acesso à água de qualidade, e, também, à coleta e trato do esgoto doméstico, transformando-o em adubo orgânico. "Eu tenho interesse de ajudar o meio ambiente", afirma Luvercínio.

 

Segundo dados do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), o Brasil subiu de 10,3% para 23,1% em relação a cobertura por rede de esgoto ou fossa séptica nas áreas rurais, estando atrás de países como Sudão (24%), Nepal (24%) e  Nigéria (25%). De acordo com os Objetivos do Milênio, estabelecidos pela ONU, visando ao desenvolvimento, sugere-se elevar a proporção para 44,85%, até 2015. "O saneamento rural é uma questão grave no Brasil, porque não existe programa público para isso. As populações urbanas têm direito ao saneamento básico, mas na zona rural isso inexiste. A ideia é utilizarmos tecnologias que a Embrapa detêm, ou seja, a fossa séptica e o clorador do tipo cloro-difusor, que oferece ao produtor um saneamento básico", relata o pesquisador da Embrapa Gado de Leite, Marcelo Otênio.

 

A "sintonia fina", forma que Otênio define a situação atual do projeto, é uma amostra de como o saber técnico e o prático podem se relacionar e fazer a diferença. Tatiana, a monitora, hoje, pretende estudar mais "e formar em Bioquímica". Luvercínio, de acordo com o coordenador técnico da Emater-MG, Antônio Domingues, "será capaz de, através da utilização da água clorada para limpeza da teta da vaca e dos utensílios usados na ordenha, produzir um leite de excelente qualidade". E a comunidade rural, pode, como já constatado pela extensionista Ana Helena, se conscientizar para a necessidade de preservação dos rios, e, por consequência, garantir melhor qualidade de vida.


Secom MG
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